segunda-feira, 11 de julho de 2016

LEVANTANDO ÂNCORA




Quatorze anos. Estivemos em muitos dos mais lindos lugares do mundo. Mais de 10 países carimbados no passaporte. Vimos belezas indizíveis e podemos dizer que mostramos uma pequena parte do nosso maravilhoso planeta ao nosso filho.

Agora, sua primeira viagem solo... Tudo bem, não é exatamente solo. Intercâmbio com a turma da escola; professores dedicados e colegas não tão estranhos vão junto. Mas a gente não vai estar lá. O pai, a mãe. Nem um parentezinho. Nem um amigo ou conhecido que more na cidade que ele vai visitar. Sozinho, pensamos sem dizer, como um náufrago numa ilha...

Como todo pai e mãe preocupados, imaginamos o que pode dar errado, tentamos antecipar tudo, dar conselhos, redobrar o cuidado nos preparativos. Então chega o dia da partida, e o nosso náufrago não quer nem mesmo nossa presença no aeroporto. Prefere ir de ônibus com a turma.

Lutamos tanto para chegar a esse dia. Ensinamos o que foi possível de habilidades para ele lidar com situações diversas e ser independente. Coisas simples, mas, num país estrangeiro, tão difíceis até para os adultos. Pedir comida no restaurante. Fazer check-in no aeroporto. Passar pela imigração sem nervosismo. Mas a gente queria tanto ir ao aeroporto se despedir... só que não fomos, respeitamos sua vontade.

E então, eis que ele está lá, a mais de 8000 km de distância de nós. Todos os dias levantamos de manhã e a primeira coisa que olhamos é o roteiro de viagem, que agora “mora” em cima da mesa da sala: o que ele está fazendo hoje? Entramos nos sites dos lugares que ele vai visitar, procuramos fotos na internet, e viajamos junto com ele, sem que tenha consciência disso. Estamos vendo através dos seus olhos lugares novos, conhecendo uma cidade, um museu, uma cultura, e adivinhando como ele deve estar se sentindo, do que está gostando, o que o deslumbra.

Ele não quis levar um celular. Maldita hora em que o ensinamos a não ser consumista, pensamos em silêncio. Qual adolescente de 14 anos não quer um celular? Resposta: o nosso.

Nossa saída é instalar o Messenger do Facebook no seu tablet, que ele usa só para jogar e assistir a alguns vídeos no Youtube, e utilizar o app para trocar mensagens com ele.

Todos os dias, a cada hora, olhamos no nosso celular pra ver se ele está online. Dependemos do WiFi como se depende de uma tábua no meio do oceano. Rezamos para que a empresa canadense de telefonia seja melhor que as brasileiras, que cada hotel, restaurante e café tenha WiFi grátis...

Uma ou duas vezes por dia mandamos uma mensagem. Chegou bem? Está cansado? Alguma inquietação? Está gostando da viagem? São como mensagens em pequenas garrafas que vamos mandando, esperando que elas atravessem os oceanos e os 8000 quilômetros que nos separam dele e cheguem ao lugar certo: seu coração.

Nosso pequeno náufrago, a quem ensinamos muito, mas sentimos que não ensinamos o suficiente, está lá, do outro lado, recebendo nossas mensagens em garrafas. Algumas chegam até ele. De repente, um apitinho no celular: uma resposta! Sim. Está legal. Foi bom. Monossílabos, frases curtas, uma pergunta ocasional. Sinal de que está tudo bem e ele continua sendo ele mesmo.

Depois de alguns dias, começam a chegar algumas fotos e os relatos dos professores e da agência que organizou a viagem. A turma toda sentada num restaurante almoçando. Alguns alunos esparramados no sofá do campus onde vão estudar. Uma foto de todos abraçados juntos diante de um canhão antigo.
Cada foto, um sorriso aberto. Um olhar interessado. Nosso filho no meio de vários meninos de idades um pouco acima da sua (ele é o caçula do grupo), sorrindo, sendo abraçado, ouvindo uma explicação, feliz da vida.

Os relatos do professor por e-mail a cada poucos dias dão conta de uma viagem perfeita. Todos integrados, experimentando a liberdade, exercitando sua independência e assumindo suas responsabilidades juntos... Parece que, afinal, nosso náufrago não está mais sozinho.

Junto com ele, companheiros de jornada que o estão acompanhando a cada descoberta. Junto com ele, outros meninos e meninas cujos pais ensinaram tanto quanto nós, e esperam ansiosamente cada mensagem, assim como nós. Junto com ele, companheiros e, quiçá, amigos, alguns dos quais ele guardará para a vida toda, caminhando juntos, descobrindo juntos.

Então me dou conta: nosso filho não será mais um náufrago. Ele está lá, longe, sozinho, mas junto com outros meninos e meninas, cada um levantando sua âncora. Voltarão todos ao final do mês, com aquele mesmo sorriso das fotos, mas então eles não serão mais náufragos.

Voltarão para suas casas, tranquilos e independentes como grandes barcos, o peito enfunado como velas, orgulhosos das conquistas que fizeram, e das águas que singraram depois de levantada aquela âncora, que por tanto tempo os prendeu perto demais das saias de suas mães...