domingo, 9 de março de 2014

DESLUMBRANTES PAISAGENS - CRUCEROS AUSTRALIS E USHUAIA

Nossa viagem foi assim:
Época: janeiro *****
Hotel: Cruceros Australis - Via Australis ****

Idade das crianças: 10-12 *****


Em janeiro realizamos um antigo sonho e fomos conhecer a Patagônia. Iniciamos nossa viagem com um cruzeiro até o Cabo Horn, o último pedaço de terra antes da Antártida - literalmente o fim do mundo! Escolhemos o itinerário do Cruceros Australis que se inicia em Ushuaia e termina em Punta Arenas, mas há disponibilidade também para fazer o inverso.

Clique aqui para ver nossa postagem com dicas práticas sobre o cruzeiro.

Ushuaia

Chegar a Ushuaia 1 dia antes de seu embarque no cruzeiro é imprescindível. Como fechamos tudo com a agência Maktour, ao chegar à cidade fomos recepcionados por uma guia local. Foi uma boa, pois ela nos ofereceu um passeio para a manhã seguinte, em que não tínhamos nada programado. O check-in para o cruzeiro estava programado para as 10 da manhã, mas transferimos para as 13h a fim de fazer o passeio sugerido por ela.


O passeio não era lá muito barato, mas como não resistimos a conhecer um lugarzinho novo quando temos um tempinho livre em nossas viagens, lá fomos nós para o Parque Nacional e ao Tren del Fin del Mundo.

O tempo amanheceu horroroso, nublado e com uma chuvinha fina. Esse foi o dia mais frio de toda a nossa viagem, sem dúvida. Ushuaia fica bem ao sul, e o tempo vira várias vezes ao dia, literalmente as 4 estações do ano em poucas horas! Então, mesmo que você saia para o passeio com um sol glorioso, leve sempre um casaco impermeável. Nós nos vestimos como se fôssemos esquiar (friorentos!) e enfrentamos chuva, vento e frio sem problema algum.


Basicamente foi um passeio de van, com algumas paradas no Parque Nacional e caminhadas bem leves por trilhas bem demarcadas, com corrimões e decks de madeira. A beleza do lugar é impressionante, realmente vale a pena conhecer. Não é necessário ir com guia: uma pesquisa básica em guias e internet deve bastar para você fazer o passeio por conta própria.

O Tren del Fin del Mundo está anunciado amplamente em todos os hotéis e pontos turísticos, mas é um passeio meio fraquinho. A chuva atrapalhou muito a visibilidade das janelas. No áudio durante o passeio, eles contam uma história sobre como o trem era usado para carregar prisioneiros para as matas, a fim de derrubar árvores. No entanto, o trem usado não era este, e até os trilhos eram outros. Não existe registro fotográfico ou outros remanescentes da história, então ela é basicamente... uma história.


Enfim, um passeio divertido para as crianças que gostam de trem, mas sem grandes atrativos. A parte mais interessante sem dúvida foi ver grandes áreas devastadas, onde só restaram os tocos das árvores. Isso ocorreu há 100 anos e a mata ainda não se regenerou. Lições para as próximas gerações.

Isso foi o que conhecemos de Ushuaia. Se tiver mais 1 dia, vale a pena fazer uma navegação pelo Canal de Beagle, e subir no teleférico da cidade para ver a vista lá de cima.

Cruceros Australis

Agora vamos contar pra você um pouquinho das maravilhas que vimos em 5 dias a bordo. Se quiser ler primeiro nossas dicas práticas para reservar e curtir melhor o cruzeiro, clique aqui.

O itinerário de nossa saída iniciou-se em Ushuaia. Para chegar ao Cabo Horn é necessário descer e voltar pelo mesmo caminho até Ushuaia. Em seguida o cruzeiro dá uma volta em parte da Cordilheira Darwin, onde estão alguns dos maiores glaciares da Terra, entra no Estreito de Magalhães e segue para o norte em direção a Punta Arenas.

Imagem: www.australis.com

No cruzeiro, todos os desembarques e passeios são coordenados e operados pela própria equipe do cruzeiro. O mesmo funcionário que você vê arrumando as cabines pela manhã, estará sorridentemente na proa do navio ajudando você a embarcar nos Zodiacs, e novamente como "guia" nos passeios em terra.


O itinerário do cruzeiro é tão ermo que não há nenhum tipo de estrutura, operadores terceirizados para executar os passeios ou meios de locomoção nos locais de parada. Daí a tripulação multitarefa ter que fazer tudo em todos os lugares. Em alguns momentos você se sente na Fantástica Fábrica de Chocolates, cercado por oompa loompas: para onde quer que olhe vê sempre os mesmos rostos!

É de se reconhecer o empenho e dedicação de todos, mas como ninguém pode fazer tudo bem feito, em algum lugar haverá alguma falha. E é como guias dos passeios que alguns dos tripulantes mais deixam a desejar, pois nem todos têm treinamento, formação ou conhecimento suficiente para desempenhar a tarefa.

Questões logísticas à parte, como o cruzeiro passa por paisagens incríveis, as paradas também são. Veja nossa opinião e experiências em cada uma delas (consideramos o dia do embarque no cruzeiro como dia 1).

Dia 2: Cabo Horn ***

É um pouco surpreendente que o fim do mundo seja apenas uma ilha como qualquer outra, castigada pelas ondas, coberta pela relva, com um farol no topo. Chegamos ao famoso Cabo Horn às 6:30 da manhã, saímos da cabine morrendo de sono e de frio, vestidos até as orelhas e de posse dos coletes salva-vidas. Após uma longa espera no bar, fomos informados de que, devido aos ventos de 100km/h, não seria possível desembarcar no Cabo Horn.



No momento do aviso, chacoalhávamos de um lado para o outro devido ao mar que estava bastante agitado. Aliás, até chegar ao Cabo Horn a navegação está longe de ser tranquila, prepare-se para algumas horas de bastante balanço durante a noite.


Ficamos desapontados por não poder descer na ilha, mas alguns passageiros (especialmente os friorentos e as crianças) ficaram até aliviados. De todos, temos certeza de que os mais chateados eram os habitantes do Cabo Horn. Isso mesmo! O exército do Chile manda sempre um oficial com sua família para passar 1 ano, em revezamento, na ilha mais remota do planeta. Quando você recebe visitantes em sua casa apenas 1 ou 2 vezes por semana, toda vez que as condições impedem o desembarque você tem certeza de que não vai ver outras pessoas por uns bons dias!

Em todo caso, se na sua vez o desembarque no Cabo Horn acontecer, não deixe de se agasalhar bastante, pois o vento é forte e o tempo pode mudar repentinamente, trazendo mais frio e chuva.

Dia 2: Baía Wulaia *****

É um dos pontos de desembarque mais bonitos do cruzeiro. Você chega a uma praia de seixos repleta de algas e aves marinhas, digna de uma cena de documentário. Há uma casinha com um suposto museu do Darwin, pois essa região da Patagônia foi uma das que ele visitou em suas viagens. O museu é bem fraquinho, mas a trilha que começa bem ao lado dele é deslumbrante. Os passageiros são divididos em grupos e cada um segue um guia diferente.


A bordo do navio, no briefing desse desembarque, os guias vão te dizer que a caminhada é difícil, mas depois de fazê-la podemos dizer que não é tudo isso. Dá pra ir até com crianças menores, desde que sejam bem dispostas. A vista do topo é inesquecível, uma baía cinematográfica com o navio ancorado bem no meio. A subida não chega a ser dificílima, mas pode dar um calorzinho, então não se agasalhe muito para essa saída, ou vai ter que ficar carregando seus casacos metade do caminho.


Um lugar bem interessante para as crianças é um dique de castores abandonado, que atesta a destruição que esse roedor pode causar. Provenientes do Canadá e introduzidos por criadores interessados em sua pele, no início do século passado, ele se tornou uma verdadeira praga na Patagônia por não possuir predadores como os ursos. O cenário que deixaram para trás parece uma zona de guerra onde explodiu uma bomba! Não sobrou uma única árvore inteira.


No final da caminhada, como em todos os passeios, uma mesinha com chocolate quente, refrigerantes e uísque espera por você antes do embarque. Nossa sugestão é o chocolate com um pouquinho de uísque pra amenizar o friozinho.

Dia 3: Glaciar Pia *****

Esse foi o primeiro glaciar que visitamos durante o cruzeiro. Você só desembarcará em dois glaciares: o Pia e o Aguila. Os demais são vistos somente a bordo do navio ou dos zodiacs. Assim, apesar de não ser o glaciar mais bonito da expedição, não perca a oportunidade de chegar bem pertinho dele e sentir o poder desse rio de gelo em constante movimento. O navio, em seu itinerário, dá a volta na Cordilheira Darwin, cujo centro é formado por um dos maiores blocos de gelo do planeta. Esse gelo vai “escorrendo” pelos vales da montanha, e desemboca no mar em diversos pontos, onde é possível visitar os diferentes glaciares e testemunhar sua intensa atividade.


O Glaciar Pia foi o mais ativo que vimos: presenciamos nada menos do que três grandes desprendimentos de gelo. O barulho é semelhante a um trovão ou um avião passando bem perto, e a onda produzida pelos grandes blocos de gelo é impressionante.

Gelo se desprende do glaciar provocando uma onda impressionante.

Depois de observar o glaciar bem de perto, você poderá fazer uma caminhada de uns 20 minutos e chegar a um ponto onde poderá vê-lo mais de cima, e onde presenciamos mais 2 quedas de gelo:


O uísque no final desse passeio é especial: vem com uma pedrinha de gelo do glaciar. Teria sido ainda melhor se no lugar do Red Label estivesse um Black, ou, melhor ainda, um Royal Salute... Mas não deixou de ter seu encanto, um final delicioso para um passeio inesquecível.

Dia 3: Glaciar Garibaldi **** ou visita à cachoeira

Na parte da tarde, os passageiros têm duas opções: podem desembarcar e fazer um trekking bem aventureiro e radical até uma cachoeira, ou então permanecer a bordo e admirar a indescritível beleza do Glaciar Garibaldi. Como o trekking era recomendado somente para quem queria algo mais “radical”, escolhemos ficar no navio e não nos arrependemos.



O Glaciar Garibaldi é o mais bonito que você verá durante o cruzeiro, aquela imagem de glaciar clássica que está na mente de todo mundo: de um azul profundo, com picos dramáticos e brancos de doer, e uma morena central bem demarcada. Não conhecemos o Perito Moreno nem o Alasca, mas, pelas fotos de nossos amigos, podemos dizer que o Garibaldi, apesar de pequeno em comparação com esses outros lugares, não fica devendo nada no quesito beleza.

O navio fica diante do glaciar uns bons 40 minutos, tempo suficiente para apreciar, tirar muitas fotos e quase congelar no convés. Se você quiser saber como é a caminhada até a cachoeira, que era a outra opção de passeio nesse dia, nossa companheira de mesa, Tina Montana, autora do blog Go Where You Have Never Been descreve o passeio nesta postagem sobre o cruzeiro.

Dia 4: Glaciares Piloto e Nena *****

Para esse desembarque, recomendamos roupas bem quentes e impermeáveis. Não há nenhuma caminhada envolvida: você senta no Zodiac e não se levanta mais, então é inevitável sentir um pouco de frio, pois vai estar parado e tomando um vento gelado o tempo todo. No nosso passeio, ainda caía uma chuva gelada, o que aumentava ainda mais a sensação de frio. Mas não deixe nem o tempo ruim te desanimar: o passeio é o mais bonito de todo o cruzeiro.

Navegando em meio a grandes blocos de gelo.

Glaciares Piloto e Nena.

Os glaciares em si são pequenos e não tão impressionantes quanto os anteriores. Mas estão no fundo de um braço de mar que é, tranquilamente, um dos lugares mais bonitos que já visitamos. No caminho já começam a aparecer imponentes cachoeiras descendo pelas encostas do fiorde, enquanto os pequenos Zodiacs vão ziguezagueando em meio aos blocos de gelo cada vez maiores e mais frequentes. Já perto dos glaciares, o fiorde é o abrigo de milhares de cormorões que vêm nidificar durante o verão. Eles tomam cada saliência de pedra das paredes do fiorde. É uma visão incrível para os adultos e imperdível para as crianças!






Na volta, o Zodiac chega bem perto das cachoeiras e, se os passageiros tiverem espírito mais aventureiro (ou masoquista, chame como quiser), o piloto dá um banho gelado nos que estiverem sentados na proa.

Dia 4: Glaciar Aguila *****

Depois de desembarcar nos Zodiacs, esse passeio começa com uma caminhada bem fácil e muito bonita ao longo de uma praia de seixos. Os guias dão explicações sobre a microflora local e é até possível avistar aves como o martim pescador.



No final da praia, virando à direita, você entrará numa baía formada pelo glaciar, que está se retraindo. O lugar é mágico e muito calmo, e você poderá chegar bem perto do glaciar. Há uma distância a ser mantida por motivo de segurança, mas mesmo assim se chega muito perto dele.


Na volta para o navio, fomos presenteados com a visão de um lindo arco-íris, e nosso navio estava bem no meio dele! Coisas que só na Patagônia você poderá testemunhar.



Dia 5: Isla Magdalena *****

Mais um desembarque que é feito logo cedo, antes do café-da-manhã. A vantagem é que os passageiros do cruzeiro têm a ilha, que fica bem pertinho de Punta Arenas, só para eles. Ao longo do dia, ela deve ficar bem cheia de turistas vindos da cidade próxima. Esse passeio sem dúvida será o preferido das crianças, pois não é todo dia que se encontram 140.000 pinguins espremidos em uma única ilha.


As trilhas dos humanos são bem demarcadas, é preciso respeitá-las e dar preferência aos pinguins quando querem atravessar na sua frente. Eles já estão acostumados com a presença do homem. Durante uma hora você poderá caminhar até a parte mais alta da ilha, onde fica um farol e um pequeno museu, e observar todo tipo de comportamento desse animal tão engraçado e encantador, bem como algumas famílias de gaivotas. O vento é constante, mas você não poderá tirar o colete salva-vidas no passeio (não há onde deixá-lo), então não coloque roupa demais para não passar calor.



Dia 5: Desembarque

Quem já fez cruzeiro sabe que sempre há procedimentos mirabolantes para o embarque e o desembarque. No caso do Australis, o processo é menos estressante porque é um navio pequeno. Mesmo assim, você deve fechar sua conta no final da tarde anterior ao desembarque, e suas malas têm que estar a postos do lado de fora do quarto até um horário determinado na manhã do último dia. No momento do fechamento de sua conta, você deverá pegar fitas de cetim (uma cor para cada deck do navio), que serão amarradas nas malas para identificá-las no terminal. Coloque uma em cada mala e não se esqueça de trancá-las com cadeado.

Nesse momento também você pode colocar as gorjetas para toda a equipe num envelope e depositar na caixa localizada na recepção.

Ao chegar a Punta Arenas, antes do desembarque solicita-se que todos fiquem esperando no lounge, até que os procedimentos de imigração tenham sido concluídos. Se quiser ser um dos primeiros a sair, fique perto da entrada e, assim que a tripulação der o sinal, desça as escadas em direção à recepção, que é o local de embarque e desembarque por terra. No terminal, os procedimentos de alfândega são bem simples.

Ao sair, você verá muitos taxistas e o pessoal dos transfers aguardando seus passageiros com as plaquinhas de nome nas mãos. Se você for sortudo como nós, e seu destino final for o Explora Patagônia, eles têm uma mesa de atendimento no terminal, onde você entregará suas malas, seguirá para a van e será levado em uma (longa) viagem de 5 horas até o hotel.

Em nossa próxima postagem, não perca todos os detalhes sobre nossa estadia no maravilhoso Explora!


quinta-feira, 6 de março de 2014

CRUCEROS AUSTRALIS NA TERRA DO FOGO

Nossa viagem foi assim:
Época: janeiro *****
Hotel: Cruceros Australis - Via Australis ****
Idade das crianças: 10-12 *****
Finalmente decidimos realizar um antigo sonho e fomos conhecer a Patagônia. Em nossa imaginação, Patagônia era o equivalente a Torres del Paine, os imponentes picos de granito que dominam o horizonte no parque nacional de mesmo nome, no Chile. Então pensamos: já que vamos estar tão perto do fim do mundo, por que não aproveitar para conhecer, literalmente, o fim do mundo? E foi o que fizemos!


Apesar da cidade argentina de Ushuaia se autodenominar "el fin del mundo", só os ingênuos acreditam nisso. Ela é, com certeza, a maior cidade da região, e foi de onde embarcamos no Via Australis para 5 dias de isolamento, belezas indescritíveis e, é claro, uma voltinha no Cabo Horn. Este sim, ao contrário da cidade argentina, é o pedaço de terra mais ao sul do planeta, excetuando-se a Antártida.


Há tempos tínhamos vontade de fazer o cruzeiro Australis, que navega pelos fiordes da Terra do Fogo e vai até o Cabo Horn, a ponta mais ao sul do continente americano, o último pedaço de terra antes da Antártida.
Esperamos alguns anos até nosso filho ser um pouco maior, e podemos dizer que o “timing” foi perfeito. Em nossa viagem havia uma outra família com crianças um pouco menores, de cerca de 6 e 8 anos, e podíamos notar o stress permanente em que ficavam os pais. Os motivos pelos quais as crianças pequenas não aproveitam tanto o cruzeiro são inúmeros:
    - Não há nenhum tipo de diversão ou atividades para os pequenos, nem mesmo televisão com desenhos animados.
    - No cruzeiro só há adultos, alguns adolescentes e muitos idosos. As crianças pequenas mais agitadas poderão até incomodar os demais passageiros.
    - Em cada dia o tempo ocupado em excursões é relativamente pequeno, e o tempo de navegação, mais longo. Portanto, longos períodos para as crianças sem ter o que fazer.
    - Não podemos descartar um certo risco de acidentes, pois o navio é pequeno e não foi projetado com as crianças em mente. Os passeios também não foram desenhados para acomodar bem as crianças.
    - A comida não é particularmente variada nem adequada ao paladar infantil. Apesar de poderem preparar algo diferente se for pedido com antecedência, não há muitas opções disponíveis, tampouco cardápio infantil.

No entanto, para pré adolescentes (crianças a partir de 9, 10 anos já poderão aproveitar bem) e adolescentes a viagem é inesquecível. Navegamos durante alguns dias pelos recantos mais longínquos do Chile e Argentina, vendo paisagens deslumbrantes e vivendo experiências que ficarão gravadas na memória para sempre. E o melhor: num cruzeiro fácil de reservar, fácil de embarcar, organizado e de preço relativamente acessível.

Ushuaia vista do navio.

Você pode escolher sair de Ushuaia e navegar até Punta Arenas, no Chile, ou o itinerário inverso. Optamos pelo primeiro, pois, ao término do cruzeiro, ficamos alguns dias no hotel Explora, que fica a 5 horas de carro de Punta Arenas, pertinho do maciço de Torres del Paine. Há algumas pequenas diferenças de itinerário dependendo da saída do cruzeiro, então vamos contar para você sobre os passeios que fizemos. Mas, antes, nossas dicas práticas para você fazer a viagem acontecer.

Planejando a viagem

Reservar o cruzeiro Australis é incrivelmente fácil. Você pode fazer sua reserva tranquilamente pela internet, se quiser, através do site do Australis. Nós optamos por utilizar a agência de viagens Maktour, que, por ter iniciado como uma agência especializada em esqui, tem boas operações no Chile e na Argentina.

O motivo de termos usado a agência foi que, após muitas buscas na internet e entre os amigos... cricri... cricri... não encontramos nada, nenhuma única dica sobre a logística de check-in, embarque, transfers e desembarque desse cruzeiro. Assim, ficamos com um pouco de receio de chegar a Ushuaia e encontrar uma operação complicada, ou precisar ir a um terminal longínquo ou algo do tipo. As vantagens de usar a agência foram que eles reservaram tudo para nós - inclusive os voos, que são a parte mais complicada da viagem - o valor não saiu mais caro do que fazendo tudo diretamente, e ainda pudemos parcelar o pagamento.

A desvantagem é que, apesar de nossas vigilâncias e questionamentos (que SEMPRE fazemos quando contratamos agentes de viagens), houve um equívoco por parte da agência no agendamento de nosso voo de volta. Devido ao horário extremamente inconveniente, fomos obrigados a trocar uma noite no paradisíaco Explora por uma noite em Punta Arenas (num hotel meio medíocre), no último dia da viagem. Mas não chegou a arruinar a experiência como um todo, apenas serviu para que redobremos a atenção da próxima vez. Resumindo: nenhum agente de viagens vai organizar seu itinerário com tanta precisão e cuidado quanto você mesmo, se você tiver tempo e energia para isso.

Bem, fora o detalhe do voo de volta, o restante da viagem transcorreu serenamente: fomos transportados alegremente para lá e para cá por guias e motoristas, sem precisar nos preocupar com táxis, tarifas, engambelações e, o principal, sem precisar colocar a mão no bolso novamente!

A chegada e embarque no cruzeiro

É muito importante você chegar a Ushuaia pelo menos 1 dia antes do embarque, e pernoitar na cidade. Apesar de não ser o lugar mais bonito da Patagônia, é bem simpática e a comida é muito boa! Você pode até ficar umas duas noites para conhecer um pouco a região. Nós fizemos somente um passeio no Parque Nacional e no Tren del Fin del Mundo, mas existem também saídas de barco para conhecer o Canal de Beagle que parecem bem interessantes, pois aparentemente avistam-se muitos animais.


Na rua principal do comércio de Ushuaia, há várias lojas de roupas e equipamentos para aventura: North Face, Salomon, Columbia, todas as grandes marcas estão presentes. Tem também artigos de couro, e muitos restaurantes gostosos. Nós experimentamos o churrasco no La Estancia (apesar do serviço um pouco atrapalhado, a boa vontade prevalece e o cordeiro é uma delícia!), e escolhemos nossa centolla ainda viva no aquário do Cantina de Freddy. Nem é preciso dizer que estava uma maravilha... E o melhor é que em todos os restaurantes tem sempre uma opção para quem não gosta de comidas diferentes: um bife de chorizo com fritas, um salmão grelhado, etc.


Assim, recomendamos que, em sua estadia em Ushuaia, fique hospedado em um hotel no centro. Nós ficamos no Albatros, que não tem lá grandes luxos e cujo café-da-manhã é bem fraquinho, mas é ajeitadinho e confortável o suficiente para uma noite. E, o mais importante, ficava a poucos passos da rua principal. Com certeza há opções melhores na cidade, basta fazer aquela pesquisa básica no TripAdvisor.

O check-in e entrega das bagagens para o cruzeiro, em Ushuaia, é feito num escritório localizado bem na rua principal da cidade. Assim, se você não tiver muita bagagem, ficando hospedado no centro de Ushuaia não vai precisar nem de táxi para chegar lá. Como não sabíamos exatamente onde ficava cada coisa, e não sabíamos o que esperar da organização da cidade e do Australis, optamos por contratar todos os transfers direto com a Maktour antes de sair do Brasil. Facilitou muito nossa vida, especialmente porque tínhamos várias malas pequenas para carregar, mas não foi imprescindível.

Depois de entregar as malas no escritório da companhia, onde é realizado o check-in, por volta das 13h, fomos almoçar e passear um pouco na cidade, matando o tempo até por volta das 17h, que é o horário do embarque. Não deixe para fazer seu check-in muito tarde, pois é nesse momento que você escolhe o lugar para se sentar no restaurante. Como ele não é muito grande, de todas as mesas se pode ver as amplas janelas. Mas se quiser sentar bem ao lado de uma delas, vai precisar chegar bem cedo. O pessoal do escritório também vai te orientar sobre os idiomas falados pelas pessoas nas mesas onde ainda há lugares. Nós escolhemos uma onde se falava inglês, e nossos acompanhantes de cruzeiro foram um casal brasileiro muito simpático e uma família de norte-americanos que mora na Argentina. A mãe é autora do blog Go Where You Have Never Been, que tem dicas bem bacanas sobre América Latina.


Para embarcar no cruzeiro, dá pra chegar ao porto caminhando em menos de 10 minutos. O processo é tranquilo e eficiente, mesmo porque havia somente 120 passageiros no nosso navio. No entanto, não espere grande conforto ou luxo no terminal, que é bem simples e não tem sequer uma lanchonete. Assim, se achar necessário leve seu próprio lanche e água para esperar o embarque.

Uma vez no navio, você é recepcionado por um membro da equipe que o leva até sua cabine, onde suas malas já estão lhe esperando. No Via Australis, são apenas 3 andares de cabines: as maiores ficam no 4o deck, as intermediárias no 3o e as menores, no 2o. Nós ficamos em uma cabine intermediária (AA), no 3o deck, que nos surpreendeu com o espaço e o conforto oferecidos.

Ao chegar à sua cabine, verifique se há no armário um colete salva-vidas para cada integrante da família. Não deixe de experimentar o colete, pois você vai usá-lo todos os dias de sua viagem. O colete é usado por cima da roupa, casacos grossos, etc, então não pode estar muito justo.

Informações, reuniões e desembarques

Logo no primeiro dia, já se iniciam as sessões de orientação sobre os passeios e procedimentos do navio. Todas as noites, um informativo com os horários dos passeios, desembarques, refeições, filmes, palestras e orientações do dia seguinte é deixado na sua cabine. É importante ler com atenção para saber o que vai acontecer durante o dia. Em especial, você não deve perder as sessões de orientação ("briefing"), e, é claro, os horários de desembarque para os passeios.


Na nossa saída do cruzeiro, eles tentaram dividir a turma em dois salões para os briefings (no bar em língua inglesa, e no lounge para briefing em espanhol), mas no final o ibope das palestras em inglês era tão superior que eles desistiram de fazer em espanhol. Se tiver dúvidas, não deixe de perguntar, pois a tripulação é chilena e dá pra se comunicar em portunhol.

Os briefings são importantes porque dão informações essenciais para você fazer os desembarques sem dificuldades e sem pagar mico. São dadas informações sobre o horário de desembarque, o tempo que provavelmente vai fazer no passeio (indicação importante sobre que roupas usar), local de encontro, dificuldade das caminhadas quando houver, etc. Há uma tendência da tripulação a exagerar um pouco as dificuldades e as condições dos passeios, então é preciso dar um descontinho. Isso provavelmente se deve à quantidade de estrangeiros, especialmente americanos, e idosos entre os passageiros.

Uma coisa que você não deve negligenciar é o tempo. Se eles disserem que vai fazer frio no passeio, use a roupa mais quente que você tiver sem medo. Se disserem que você vai caminhar e sentir calor, não exagere na quantidade de camadas. Os passeios são curtos (no máximo 3h de duração), então você não vai sofrer muito se errar a roupa, mas com certeza vai aproveitar bem melhor cada desembarque se estiver vestido para a ocasião!

Para todos os desembarques, você deve comparecer vestido, paramentado e com seu colete salva-vidas em mãos. É preciso colocar o colete antes de se dirigir à área de embarque dos Zodiacs, botes infláveis em que sempre se fazem os trajetos entre o navio e os locais dos passeios. O procedimento de embarque nos Zodiacs é bem explicado na primeira palestra, e repetido à exaustão todos os dias. O motivo é a sua segurança, então é preciso seguir o procedimento à risca.


Seguir os procedimentos de segurança e não se atrasar para as atividades, aliás, são dicas importantes. A maioria dos passageiros é americana e europeia, com uma cultura diferente da nossa. É claro que cada um é livre para se comportar como quiser, mas se o viajante não estiver disposto a seguir algumas regras de etiqueta, preferindo uma viagem de férias mais relaxada onde ele possa fazer o que der na telha, na hora em que quiser, e deixar as crianças correrem e gritarem livremente pelos espaços públicos, então esse cruzeiro não é para ele. Não fazer barulho durante as palestras, não deixar as crianças correrem e gritarem em locais onde podem atrapalhar os demais, cumprir horários e seguir os procedimentos solicitados são itens importantes num cruzeiro como este, em que o navio é pequeno, o local é remoto e qualquer acidente pode significar o fim da viagem para todo mundo.

O que vestir e dicas de bagagem

A atmosfera da viagem como um todo é de aventura e exploração. Assim, não é necessário levar trajes formais para os jantares. À noite todos se vestiam de maneira casual, mas um pouco mais arrumadinha do que de dia. No entanto, tinha gente que aparecia de botas de caminhada todos os dias sem problema algum. Portanto, para os momentos em que você estiver a bordo roupas casuais e leves são suficientes. Dentro do restaurante, nos lounges e corredores, e na cabine, a temperatura é amena e agradável, então calças e abrigos leves bastam.

Para os passeios, a história muda um pouco, especialmente se estiver com crianças. Se tiver roupas de esqui, é bom levar. Em alguns passeios o vento e a chuva reduzem muito a sensação térmica, principalmente para as crianças, então não é exagero usar uma calça impermeável, uma blusa fina por baixo, casaco intermediário e um casaco mais grosso e também impermeável por cima. Um par de botas com solado de borracha e resistência à água também é recomendável.


Não existe nenhum contato direto com neve ou gelo durante os passeios. Mesmo nos desembarques dos glaciares, não há nenhum passeio de caminhada sobre ou próximo deles. Há alguns passeios, como na Baía Wulaia e no Glaciar Aguila, em que você não vai precisar de roupas muito quentes, e pode até ser que acabe tirando o casaco e ficando só de manga curta... Assim, se for calorento não deixe de levar também roupas leves para as trilhas. Nos dias em que os passeios não eram no frio, fomos de calças de caminhada normais (supplex ou tactel), e até de calças de moleton.

Para não exagerar na bagagem - lembre-se de que os voos dentro da América do Sul só permitem 2 malas de 23 kg para cada passageiro - temos um truque que sempre usamos em viagens a lugares frios. Levamos apenas 1 ou 2 casacos pesados para cada integrante da família, de preferência de cores escuras, ou do tipo impermeável, para poder limpar alguma sujeirinha com uma toalhinha úmida do hotel mesmo. Levamos 1 camiseta ou blusa fina para cada dia da viagem, e essa é a camada que será trocada todos os dias. E complementamos com 2 ou 3 casacos intermediários, que servem para o caso de não fazer tanto frio quanto esperado, e para o caso de fazer muito mais frio, aí vamos acrescentando os casacos intermediários embaixo do grosso (já chegamos ao extremo de usar quase tudo que estava na mala ao mesmo tempo).

Além de roupas, há alguns itens importantes, especialmente para quem viaja com crianças. É bom levar distrações para as crianças e adolescentes. Durante as navegações há algumas palestras e filmes, mas nada que se pareça nem de longe com entretenimento infantil. Os filmes são documentários sobre pinguins e Shackleton (ok, nossa família gostou, mas é improvável que vá agradar à maioria das crianças), e as palestras foram um dos aspectos do cruzeiro que deixaram a desejar - meio fraquinhas.

Assim, livros, caderno de desenho, jogos (mesmo eletrônicos), um iPod, etc, vão ser a salvação em determinados momentos. Quem acompanha nossas postagens sabe que não somos muito fãs de calar a boca das crianças com eletrônicos, mas eles serão importantes num navio sem programação infantil e sem nenhuma televisão à vista (nem no quarto, nem nas áreas comuns!). Não se esqueça que as tomadas são 220V, então você deve levar só equipamentos bivolt.

Como sempre, equilíbrio é a palavra-chave, então não deixe de combinar com seus filhos que irão desligar tudo por algum tempo diariamente, não só durante os passeios, mas também durante a navegação. Vocês vão passar em meio às paisagens mais remotas e deslumbrantes do mundo, aquelas que a gente só vê no Discovery Channel. Não percam a oportunidade de apreciar!

Aliás, um par de binóculos cai muito bem na bagagem, assim como uma bússola e, se conseguir, compre um mapa da região em Ushuaia, antes de embarcar. É divertido apreciar as grandes aves marinhas pelas janelas, além de procurar no mapa os pontos por onde estão passando e a direção para onde estão navegando. Obviamente não deixe de levar a câmera fotográfica e, se for do tipo que grava vídeos, a filmadora.


Não se esqueça de levar uma farmacinha com os medicamentos básicos de que vocês podem precisar, pois você vai estar longe de tudo e ter remédios para pequenos males é bem recomendável. Importante: se tiver problemas de enjoo não deixe de tomar Dramin ou outro remédio equivalente, pois o navio é pequeno e chacoalha bastante em alguns trechos.

Uma última dica importante para a viagem: levar lanchinhos. O navio tem horários restritos de refeições, e entre elas são servidos alguns petiscos no bar, e chá com bolo, etc, no lounge. Só que as opções são limitadas e, no lounge, uma vez que acaba a oferta do momento, não há reposição. Além disso, em pelo menos 2 ocasiões o desembarque ocorre ANTES do café-da-manhã. Então, alguns lanches industrializados como biscoitos, chocolates, bolinhos, salgadinhos são muito úteis para dar às crianças antes dos desembarques madrugadores, e nos intervalos entre as refeições.

Não é necessário levar água nem squeeze, pois todos os dias são entregues garrafas de água na cabine, que você pode levar nos passeios. Aliás, é interessante levar uma mochila pequena para carregar nas caminhadas, além de protetor solar, óculos escuros e protetor labial.

Restaurantes e alimentação

Por ser um navio muito pequeno, não há muitos lugares onde se pode conseguir comida por aqui... O restaurante principal não é muito grande, pois são apenas 120 passageiros mais a mesa do comandante. Lá são servidas as 3 refeições do dia: café-da-manhã (buffet), almoço (também buffet) e jantar (menu fixo com 2 opções de entrada, prato principal e sobremesa).


Nos horários em que o serviço é de buffet, a coisa pode ficar bem confusa. A reposição não é lá muito eficiente e a comida não chega a ser inspiradora. Dica: se você estiver passando pelo buffet e vir alguma opção de que gostar, pegue um pouco imediatamente, mesmo que isso signifique levar dois pratos para a mesa. Quando você resolver voltar para pegar a comida, pode ser que ela não esteja mais lá e não tenha mais reposição. Como o cruzeiro não passa por nenhum lugar onde haja comércio, eles têm que carregar 5 dias de provisões em Ushuaia, o que implica necessariamente quantidades limitadas e o mínimo de desperdício possível. Por isso, eles optam sempre por deixar faltar um pouco de comida, do que correr o risco de sobrar demais.

No horário do almoço, seu garçom irá pegar os pedidos para o jantar. Se precisar de algo diferente para as crianças comerem (como nos dias em que não houver nenhuma opção para as crianças no menu normal), peça para o garçom verificar a disponibilidade. Mas, no geral, a comida do jantar é melhor que do almoço. Em nossa avaliação, o almoço receberia uma nota 5, e o jantar, 7 ou 8.

Um ponto alto das refeições são os vinhos servidos. Não são vinhos grandes e caros, mas honestos e gostosos, como por exemplo diferentes varietais da vinícola Kaikén e Santa Rita Medalla Real. Novamente, se você gostar de algum vinho, peça logo no começo do jantar, pois ao longo da refeição as garrafas acabam e vão sendo substituídas por outros tipos.

O que mais deixou a desejar sem dúvida foram as sobremesas. A dificuldade de manter ingredientes frescos como creme de leite e frutas durante 5 dias sem reposição com certeza desempenhou seu papel nesse quesito. A maioria dos cremes e mousses era à base de gordura vegetal, o que não ajuda nem o sabor, nem a consistência dos pratos.

Fora do restaurante, durante o dia o bar serve alguns petiscos (não vimos nada apropriado para crianças) e no Yamana Lounge o que sobra do café-da-manhã é colocado em bandejas para você se servir. É aí também que são servidos alguns itens antes dos passeios que acontecem de manhã cedinho, para quem quiser comer alguma coisa antes de desembarcar. As opções são sempre limitadas e a quantidade, insuficiente. Não conte com esse café, garanta-se com os lanches trazidos por você na sua cabine.

Dinheiro e gorjetas a bordo

Por último, você praticamente não vai precisar de dinheiro a bordo. Há apenas uma "lojinha" a bordo, que se trata basicamente de duas vitrines com produtos da Patagônia e Cabo Horn, não há nenhum produto do cruzeiro em si. A única compra interessante que achamos foi uma carta náutica da região, devidamente plotada com o itinerário do navio e assinada pelo comandante. Se quiser comprar essa lembrança, passe logo no primeiro dia na recepção e faça o pedido. Você receberá o mapa no último dia, devidamente acondicionado em um tubo. Tudo que você consumir ou comprar pode ser pago no penúltimo dia no fechamento da conta.

As sugestões de gorjetas do navio são bem razoáveis, então, para reconhecer todo o esforço e trabalho de uma tripulação que vive 4 meses do ano literalmente no fim do mundo, não deixe de contribuir. Você pode colocar num envelope e depositá-lo na caixa específica para esse fim, que fica na recepção, no último dia do cruzeiro.

Essas são nossas dicas práticas para você embarcar no cruzeiro rumo ao fim do mundo. Na próxima postagem, vamos contar como são os passeios e os desembarques, e você poderá conhecer um pouco da beleza intocada e indescritível das paisagens que visitamos!