domingo, 3 de julho de 2011

COMO SABOTAMOS NOSSAS VIAGENS.




Seja em Paris, ou numa pousada
na montanha...
Para que viajamos com a família? Você já parou para se perguntar isso? Como você já deve ter percebido, nós já. Muitas vezes. Seja antes de viajar, seja em plena estrada, ou até mesmo depois que voltamos para casa e estamos fazendo o "balanço" final.

Podemos pensar que viajamos para conhecer lugares novos; mas, e quando viajamos pela segunda vez para algum lugar em que já estivemos, essa viagem não vale o mesmo?

...viajar é criar memórias juntos,
em família, para toda a vida!
Às vezes pensamos que nossas viagens servem para relaxar e nos divertir. E aquela viagem onde várias coisas deram errado, e voltamos para casa mais cansados do que quando saímos? Deixou de ser proveitosa só por causa de alguns detalhes (pequenos ou grandes), que deram errado?

Outras vezes ainda podemos pensar que viajamos para "aproveitar", já que trabalhamos tanto e merecemos um pouco de luxo e extravagância. Mas será que isso faz das viagens simples, onde alugamos uma casa na praia ou ficamos numa pequena pousada na montanha, menos importantes do que naquelas em que investimos muito dinheiro?

No frigir dos ovos, chegamos à conclusão de que viajamos para criar memórias e laços de família juntos. Não importa se chegamos a relaxar totalmente, se algo na viagem deu errado e tivemos que consertar, se gastamos muito ou pouco dinheiro, se viajamos todas as vezes para um lugar novo, ou se vamos todos os anos para o mesmo hotel, a mesma cidade. Nada disso importa se a viagem for decidida em comum acordo pela família, se todo mundo tiver a mente aberta para aproveitar cada lugar como ele é.

Viajar com essa abertura não é uma tarefa fácil. Muitas vezes em nossas conversas com amigos percebemos que eles fizeram viagens em que, enquanto uma pessoa se divertiu e aproveitou até dizer chega, outra teve a sensação de que fez mais um favor do que aproveitou verdadeiramente a viagem.

Nós também, nas primeiras vezes que viajamos com nosso filho, chegamos até mesmo a discutir se deveríamos sair para passeios todos os dias, ou ficar dormindo no hotel. Cada um tinha uma opinião diferente, e no início isso rendeu bate-bocas acalorados. Com o tempo - e depois de muitas viagens - fomos ajustando o ritmo e o estilo a cada integrante da família.

Nós tivemos essa dificuldade para ajustar nosso ritmo e expectativas de viagem, e notamos que muitas famílias amigas também têm o mesmo problema. Os filhos querem ir para a Disney todo ano, a mãe quer ir para um resort descansar, o pai quer uma viagem de aventura diferente a cada férias. Um ano a filha adolescente não tira Paris da cabeça, enquanto a mãe só pensa no trabalhão que o irmão pequeno vai dar, andando de metrô pra cima e pra baixo na cidade-luz... Ajustar as expectativas e definir os reais motivos pelos quais viajamos é o passo principal para escolher uma viagem que seja proveitosa para todo mundo, e para isso é preciso evitar algumas armadilhas, como essas que colocamos aqui.

Todo mundo quer aventura, luxo e glamour... Será?

Um erro que cometemos às vezes é viajar para aquele lugar luxuoso e glamouroso, ou ainda fazer aquela aventura que todo mundo está comentando, sem parar para pensar se o destino tem a ver com a família. Preste bem atenção em quem está falando sobre o lugar: é uma família parecida com a sua? Já levou os filhos ainda bebês até a Índia e o Nepal, ou viaja para o mesmo resort todos os anos? Fica no hotel mais caro da cidade todas as vezes, ou economiza até o último centavo e aproveita cada atração gratuita da cidade? Identificar-se com quem está dando a recomendação é muito importante, pois para cada estilo de pessoa há um estilo de viagem diferente.

Gramado (foto), Bariloche e
Foz do Iguaçu: agradáveis surpresas.
Por exemplo: não é só porque todo mundo fala que Bariloche é um destino "batido", "cheio de brasileiros" (como se isso fosse um ponto negativo por si só), que necessariamente será ruim para vocês. Se a família tem pouca experiência em viagens e quer um destino onde tudo é bem acessível e turístico, sem perder o charme e a diversão, e ainda por cima com neve (um bônus para a maioria dos brasileiros), então Bariloche é perfeito!

Outros lugares que os turistas "descolados" costumam desprezar, e que nos renderam agradáveis surpresas, são Foz do Iguaçu e Gramado. Então, pense de novo. Se seu objetivo é criar momentos e memórias com sua família, esses lugares podem ser opções mais relaxadas e divertidas do que Nova York, Paris ou Hong Kong.

Gastar os tubos na viagem... Pra que mesmo?

Antes de mergulhar de cabeça naquele hotel super caro que o agente de viagens recomendou, ou de ir na onda de outra família com muito mais posses do que a sua, e se endividar até o último fio de cabelo para pagar uma viagem, pense duas vezes. Será que não há nenhum destino mais acessível ao seu bolso, e que vai dar a mesma satisfação e criar memórias até mesmo mais felizes para sua família?

Nos momentos em que temos, bem, "restrições orçamentárias", planejamos a viagem ao contrário. Decidimos quanto poderemos gastar naquelas férias, e saímos à cata de lugares que se encaixam no orçamento. Pode ser um hotel mais caro, só que pertinho de casa, para podermos ir de carro e economizar na passagem aérea. Ou uma viagem de pacote, que sempre sai mais barata, apesar de não permitir a mesma flexibilidade, escolha de hotéis, etc. Ou ainda trocamos uma viagem para outro continente por um fim-de-semana prolongado no Chile.

Uma coisa é certa: se você pagar mais do que pode por uma viagem, certamente cairá naquela armadilha de tentar "aproveitar" ao máximo, estressando seus filhos e brigando com todo mundo porque não querem entrar no enésimo museu, ou enfrentar a centésima fila nos brinquedos da Disney, ou porque querem voltar para o hotel e... descansar, ao invés de enfrentar uma fila de 2 horas para subir na Torre Eiffel ou na Estátua da Liberdade. Tentar "fazer valer" uma viagem pela qual você mal pode pagar não parece ser a maneira mais aconselhável de criar bons momentos com sua família.

Não é raro gastar as economias de um ano inteiro numa viagem, e de volta à casa o tio vem visitar e pergunta para seu filho: "o que você mais gostou em Paris?" E ele responde sem piscar: "da piscina do hotel". Você pode pensar: ora, se era só para curtir uma piscina poderíamos ter ido àquela pousada na praia, não precisaríamos ir até Paris!

Então, use o raciocínio reverso e comece pensando no valor que você quer gastar (não se esqueça de contabilizar passeios, refeições e compras, que, em alguns lugares são inevitáveis), para então decidir o destino. Você vai se surpreender com a quantidade de lugares interessantes que pode visitar com pouco dinheiro!

Planejar cada minuto do itinerário... E depois?

Depois? Ficar arrastando as crianças dia após dia da viagem, tentando fazer com que a família toda cumpra um cronograma rigidamente estabelecido por você, para que não reste sequer um minuto ocioso.

É claro que viajar com família requer um pouco de pesquisa e planejamento. Uma pequena prova dessa necessidade das famílias é nosso blog, que, sendo pequeno, recebe cerca de 1800 visitas por mês de pais e mães ávidos por informações que farão suas viagens mais tranquilas. No entanto, existe uma diferença entre pesquisar e se informar, e tornar-se escravo da informação e do planejamento.

É importante, por exemplo, saber que determinado museu fecha às segundas-feiras, e que aos domingos a entrada é grátis. De acordo com o interesse da família, planejaremos para visitar no domingo (se quisermos economizar), ou de terça a sábado (se quisermos evitar multidões). Muito diferente é traçar um plano em que deve-se visitar esse lugar na terça-feira - e somente na terça-feira - das 14:30 às 17:30, e que às 17:40 temos que estar de volta ao hotel para nos prepararmos para o jantar, que é às 19:15... Na quarta não podemos visitar esse museu porque temos um programa X, e na quinta um programa Y, e assim por diante. Dessa maneira, as férias da família parecem mais uma estratégia militar do que uma viagem de lazer.

Portanto, se você tem a tendência a planejar demais, policie-se para que a viagem não se torne uma tortura infindável, principalmente para as crianças. Se você planejou ficar no Universal o dia todo, e as crianças querem voltar para o Magic Kingdom, qual o problema? Negocie: papai vai andar na Hollywood Rip Ride Rockit uma vez, a família toda vai assistir Shrek 3D (ou outras atrações que vocês considerem imperdíveis) e depois vamos para o outro parque. Por mais que papai queira ficar no Universal o dia todo, as crianças poderão arruinar esse dia porque estão pensando na Big Thunder Mountain e no Dumbo!

Portanto, dois detalhes importantes não podem escapar quando planejamos viagens com crianças. O primeiro deles é ter flexibilidade de horário e dias para visitar os lugares. Quem sabe quando seu filho vai acordar com uma febre? Provavelmente será bem naquele dia que você planejou irem ao parque aquático! Haverá ainda aquela noite em que ficaram vendo um show até tarde, e no dia seguinte bate aquela vontade de acordar mais tarde, tomar café no quarto... Não tem nada mais gostoso nas férias! Então, deixe folga no seu planejamento para fazer essas coisas, encaixar um passeio diferente que vocês descobriram ao chegar ao destino, ou ainda um momento para as crianças brincarem no playground na frente do hotel.

O segundo detalhe importante é deixar sempre momentos livres para descansar. Não só alguns momentos durante o dia, como também deixar meios-períodos ou até dias inteiros durante o itinerário para não fazer nada. As crianças não são como os adultos, e precisam de intervalos de descanso, até mesmo para processarem e absorverem todas as experiências e coisas novas que estão aprendendo na viagem.

Levar as neuras do dia-a-dia na bagagem de mão... Por quê?

Uma coisa que fazemos sem pensar é levar todas as nossas manias, neuras e exigências conosco nas viagens. Por mais justificáveis e louváveis que sejam os motivos, ficar dando ordens a seus filhos, brigar com o marido porque não ajuda a dar banho nas crianças, brigar com a esposa porque deixou os filhos comerem doce, etc, não são a melhor maneira de curtir uma viagem.

Enquanto estiver na estrada, procure ser mais relaxado com esses padrões! Qual o problema das crianças passarem um dia sem tomar banho porque chegaram ao hotel caindo de sono? Ou comerem duas sobremesas em um só dia da viagem? Ou ainda de quererem comprar uma lembrança que estava fora da "programação"? Viagem é prazer, então deixe as neuras do dia-a-dia em casa, ao invés de carregá-las com você. O pior de tudo é quando as levamos na bagagem de mão: é mais chato ainda do que na mala, pois aí começamos a pegar no pé de todo mundo ainda no aeroporto, antes mesmo de entrar no avião...

Viagem definitivamente não é o lugar para dar aos filhos toda a educação que deixamos de dar o ano inteiro. Se seus filhos têm limites razoáveis sempre, e compreendem bem esses limites, dificilmente você terá grandes problemas com eles fora de casa. Quando ficamos distantes o ano todo por causa dos afazeres do dia-a-dia, e de repente passamos 24 horas por dia juntos nas viagens, é muito difícil conseguirmos impor nossos padrões de educação do dia para a noite, ainda por cima longe de casa. Então, relaxe, divirta-se, e aproveite para conhecer melhor seus filhos, deixando para "corrigi-los" - ou corrigir a você mesmo - quando voltar para casa. E nesse caso, faça-o a partir do momento que pisarem em casa, não deixe de fazê-lo em momento algum, e a próxima viagem com certeza será muito mais prazerosa!

E você, já cometeu algum erro assim em suas viagens? Poste sua experiência, e o que você faria diferente se pudesse voltar atrás. Poderá ajudar muitas famílias que ainda estão ensaiando suas primeiras viagens com as crianças!